A Propósito dos 500 Anos da Reforma Protestante

Texto publicado no Jornal A Opinião em 27 de outubro de 2017

No próximo dia 31, as comunidades religiosas protestantes de todos os continentes, especialmente as luteranas, juntamente as escolas comunitárias que tiveram origem confessional, celebram oficialmente os 500 Anos da Reforma Protestante. Na verdade, em nível mundial houve um conjunto de ações ao longo do ano todo. Na Escola Duque, entre outras, um marcador de contagem regressiva esteve afixado na parede de um corredor lateral, dois mosaicos de cerâmica da Rosa de Lutero foram feitos por alunos, pais e professores para afixar na Igreja do Bairro Centenário e na Praça da Bandeira, um quadro temático foi colorido por alunos, professores e funcionários para afixar na Igreja do Redentor e um canteiro de temperos, em forma de Rosa de Lutero, foi feito com os alunos do 7º Ano na Horta do ginásio esportivo.                                                                 

Como professor de História, admito que algumas coisas podem ser questionadas sobre as falas e a postura de Lutero em relação a determinados aspectos, por exemplo, a posição a favor dos príncipes sobre a Guerra dos Camponeses. Também admito, como luterano, a postura questionável da igreja no processo colonizador, especialmente no continente africano, fazendo vistas grossas à postura escravocrata e desumana dos colonizadores europeus.

Contudo, Lutero, como um homem do seu tempo, teve algumas posturas e ideias que ajudaram a transformar a humanidade para sempre. A tradução da Bíblia para a língua alemã revolucionou para sempre a leitura entre os europeus, provocando uma profunda ruptura com a cultura medieval. O mesmo e maior peso teve o incentivo dado por Lutero à criação de escolas. Ele foi, sem dúvida, um dos pais da educação pública ampla, geral e irrestrita entre os povos.  

Vale a pena relembrar algumas teses defendidas por Lutero com relação à educação. A primeira e mais clássica é a carta aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas cristãs. Para ele, “omelhor e mais rico progresso para uma cidade é quando possui muitos homens bem instruídos, honestos, muitos cidadãos ajuizados”, pois “o progresso de uma cidade não depende apenas do acúmulo de grandes tesouros, da construção de muros de fortificação, de casas bonitas, de muitos canhões e da fabricação de muitas armaduras [...]”. Teve a “ousadia” de dizer aos príncipes que “se alguém der um ducado [moeda de ouro] para a guerra contra os turcos (mesmo que não atacassem), seria justo que doasse cem ducados para educação”.

Lutero idealizava escolas voltadas para o dia-a-dia. O perfil dessas rompia com o ensino repressivo, sugerindo o lúdico na aprendizagem. Uma de suas falas destaca que “Pela graça de Deus, está tudo preparado para que as crianças possam estudar línguas, outras disciplinas e história, com prazer e brincando”. E continua, “falo por mim mesmo: se eu tivesse filhos e tivesse condições, não deveriam aprender apenas as línguas e História. Também deveriam aprender a cantar e estudar Música, com Matemática”.

Lutero realçava o valor dos professores, dizendo que se precisasse optar por outra profissão, ele escolheria ser professor e também apontou para uma diretriz pedagógica fundamental: “Ensinamos melhor aquilo que precisamos aprender”. Professor que para de aprender, não ensina mais.

Com essa pequena síntese sobre as ideias de Lutero, percebe-se um certo jeito de fazer educação, um determinado perfil, que se manteve nas escolas da Rede Sinodal de Educação, incluindo a Escola Duque. Uma escola com valores e princípios bem definidos que não esqueça da liberdade individual, com atividades esportivas e culturais, com conteúdo sim, mas também atividades de exercício de competências e habilidades para a vida, sempre na direção do mais importante lema das instituições protestantes: instituição reformada, sempre se reformando!

Sérgio E. Michels

Escola Duque